De que maneiras tão estranhas e inesperadas pode Deus fortalecer a confiança dos seus filhos e ensinar-lhes que realmente “Ele tem cuidado de vós”? O saudoso pr. Josué dos Santos, um homem santo, um homem de oração, irmão da minha esposa Zênia, contou-me que, certa vez, um vizinho trouxe uma araponga para o apartamento, cuja varanda ficava bem ao lado da área de serviço da sua casa.
Quem ouve o canto da araponga e não conhece o pássaro, pensa tratar-se de uma ave de grande porte porque o som que ela emite parece um ferreiro batendo o martelo com muita força na bigorna. “Vai ver – disse Josué – é um bichinho deste tamanhinho, quase um pardal.” Poucos dias depois, a esposa do pr. Josué, Manoelita, começou a se queixar. Não suportava mais as marteladas. “Parece que ele está batendo dentro da cabeça da gente.” “Que nada, mulher, até que é pitoresco, parece que a gente está na floresta...”, respondia o marido, sorrindo. Um dia, porém, ele teve que ficar em casa o dia todo. Realmente, as primeiras “marteladas” foram pitorescas. Com o tempo, aquele PLEM PLEM PLEMPLEM PLEM foi entrando pelos ouvidos como um punhal, irritando, enervando. A mulher tinha razão, mas que fazer? Falar com o vizinho? Desaconselhável. Mudar-se? Impossível. Suportar o ruído infernal? Até quando? “Bem, o jeito é orar; Deus há de ter uma solução.” Oraram naquela mesma noite, entregando o problema a Deus. Oraram e foram dormir. No dia seguinte, o sol amanheceu brilhando, espairecendo a bruma, no mais delicioso silêncio. O sol subiu, esquentou e o silêncio continuava. Não foi preciso que eles perguntassem pela araponga. A vizinha tomou a iniciativa de contar. Pela manhã, quando ela foi tirar a araponga da varanda, a gaiola estava vazia, com a portinha aberta. Estranho, muito estranho, pois não havia qualquer sinal de violência. “O silêncio é uma bênção”, comentou Josué. Todos nós temos, vez ou outra, uma “araponga” indesejável, martelando sem parar, ferindo-nos o ouvido e, não raro, a própria alma. Pessoas cujo discurso não muda, não varia o tom, fere, enerva. É um vizinho, um colega de trabalho, uma pessoa da Igreja, o marido, a mulher, um filho, que tocam sempre a mesma tecla, pior quando desafinada. Há os que se conformam. Convivem pacificamente com a dor. Sofrem a injustiça calados. Aceitam o mal como inevitável para depois descobrirem que, no íntimo, viveram uma vida aborrecida. Outros resolvem reagir ao barulho inconveniente com outro barulho maior. Respondem a cada agressão com outra agressão mais violenta. Outros simplesmente fogem. Mudam-se de “residência”, isolam-se. Você tem uma “araponga” a azucrinar sua sensibilidade? Entregue o seu problema nas mãos de Deus. De algum modo, maravilhosamente estranho, Deus lhe responderá. Não sofra dois males: as marteladas da araponga e a falta de fé. Entregue, de fato, o seu problema a Deus e durma. Faça do problema que a sua araponga pessoal lhe causa um desafio para depender mais de Deus e crescer na fé. Amanhã pela manhã, o sol se erguerá sobre as brumas e você poderá ouvir Deus falando na “voz mansa e delicada de um silêncio”: “Ele tem cuidado de vós”.
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